Memória Histórica: O dia em que Mato Grosso registrou neve e temperaturas abaixo de zero

Registros históricos do Arquivo Público de Mato Grosso e edições de jornais de época relembram um fenômeno meteorológico extraordinário ocorrido em julho de 1975: a queda de neve em solo mato-grossense. No período que antecedeu a divisão do estado, que resultou na criação de Mato Grosso do Sul em 1977, cidades como Ponta Porã e Bandeirantes — então pertencentes ao território de Mato Grosso — registraram temperaturas de 2,4°C abaixo de zero, transformando a paisagem com uma rara camada de gelo.
O evento, que completa quase cinco décadas, causou impactos severos na economia regional. Devido à intensidade da geada e do frio extremo, um decreto governamental da época destinou 200 mil cruzeiros para mitigar os danos em Campo Grande. Culturas fundamentais como o trigo, o café e a pecuária sofreram perdas significativas, com muitas lavouras registrando destruição total. O meteorologista Natalio Abraão, que trabalhava no setor de Proteção ao Voo na ocasião, recorda com nitidez o momento histórico: “É uma coisa que impressiona, né? Eu já tinha visto geada, plantas congeladas, mas a neve caindo do céu era novidade. Você saía andando e via”, relatou.
De acordo com especialistas, o fenômeno foi provocado por uma massa de ar polar continental de intensidade excepcional, combinada com uma pressão atmosférica atípica de 1035 hPa. O meteorologista Guilherme Borges esclarece que a neve exige a combinação de umidade e temperaturas extremamente baixas na superfície. “Ondas de frio durante o inverno são relativamente comuns. Nesse período do ano, as temperaturas médias já são mais baixas, e a entrada de massas de ar frio mais potentes favorece uma queda mais acentuada das temperaturas, como ocorreu em julho de 1975”, explicou.
Embora Mato Grosso seja mundialmente reconhecido por seu clima tropical e altas temperaturas, a pesquisadora Juliana Rosa, da UFMT, pontua que o episódio demonstra a diversidade climática do estado antes de sua fragmentação territorial. Atualmente, a recorrência de tal evento é considerada improvável devido ao aquecimento global e ao clima cada vez mais seco, embora não seja totalmente descartada pela ciência. A história permanece viva na memória dos pioneiros como um marco da força da natureza na região.
Fonte: G1 Mato Grosso
Alerta da Serra MT