Legado e resistência: A trajetória de Mairu Karajá, o pesquisador de Mato Grosso que conquistou a academia internacional

O cenário acadêmico e a militância pelas causas indígenas estão em luto após o falecimento precoce de Mairu Hakuwi Kuady Karajá, aos 30 anos, ocorrido no último domingo (14). Natural da Terra Indígena São Domingos – Krehawã, localizada em Luciara, no interior de Mato Grosso, o pesquisador foi vítima de um infarto em Brasília, cidade onde residia atualmente. Mairu deixa um legado de superação e excelência intelectual, tendo rompido barreiras geográficas e sociais para levar a voz dos povos originários a alguns dos centros de ensino mais prestigiados do mundo.
Membro do povo Iny Karajá, Mairu construiu uma trajetória acadêmica sólida e inspiradora. Graduou-se em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Tocantins (UFT) e obteve o título de mestre em Direito pela Universidade de Brasília (UnB). Sua sede por conhecimento o levou ao doutorado na França, onde integrou a primeira turma do programa Guatá, realizando estudos na Universidade Paris 8 Vincennes Saint-Denis. Durante sua estada na Europa, ele não apenas se dedicou à pesquisa, mas também atuou como um embaixador cultural, promovendo a valorização das línguas e tradições indígenas.
A trajetória de Mairu foi marcada por resiliência. Durante o ensino médio, para manter seus estudos em uma escola particular em Goiás, ele chegou a trabalhar na limpeza de banheiros, evidenciando seu compromisso com a educação desde a juventude. "Me ver nesse lugar é algo muito especial para mim e inspirador para o meu povo", afirmou o pesquisador em entrevista concedida no início deste ano, reforçando a importância da ocupação de espaços de poder e saber por representantes indígenas.
Diversas instituições manifestaram pesar pela perda do intelectual. A Embaixada da França no Brasil destacou sua dedicação à preservação da língua Inyrybé e à proteção dos territórios ancestrais. O Ministério dos Povos Indígenas também emitiu nota ressaltando que Mairu demonstrou como o fortalecimento das identidades e do conhecimento ancestral pode coexistir com o sucesso nos ambientes institucionais.
Além de sua atuação internacional, ele foi coordenador territorial do projeto Ilha do Bananal+ e professor voluntário de língua indígena. Mairu Karajá era frequentemente convidado para palestras e debates, onde defendia que a presença indígena nas universidades é fundamental para a produção de um conhecimento mais diverso e representativo. Sua partida deixa um vazio na luta pelos direitos originários, mas seu exemplo permanece como um farol para jovens de diversas comunidades que buscam o acesso ao ensino superior.
Fonte: G1 Mato Grosso
Alerta da Serra MT