Desembargadora de Mato Grosso analisa racismo estrutural após ser confundida com funcionária em Cuiabá

A desembargadora Adenir Carruesco, integrante do Tribunal Regional do Trabalho da 23ª Região (TRT-23), trouxe a público uma reflexão profunda sobre o racismo estrutural no Brasil após um incidente em Cuiabá. Ao ser confundida com uma funcionária enquanto realizava compras em um supermercado da capital, a magistrada utilizou o episódio para debater como o imaginário social brasileiro associa automaticamente a população negra a funções de serviço, excluindo-a de posições de liderança e prestígio.
O fato ocorreu no último domingo (17). Na ocasião, uma cliente abordou a desembargadora solicitando informações sobre produtos, presumindo que ela trabalhava no estabelecimento. Em entrevista, Carruesco esclareceu que optou por não registrar um boletim de ocorrência, avaliando que o ato não partiu de uma intenção individual de ofensa, mas de um comportamento condicionado pela estrutura social. “Na hora, compreendi o que estava acontecendo: não era um erro individual. Ela agiu pela lógica que o senso comum brasileiro internalizou, não por malícia ou ódio. Minha denúncia não é contra uma pessoa; é contra uma estrutura que naturaliza a associação entre o corpo preto e o serviço”, explicou a magistrada.
A repercussão do relato nas redes sociais revelou a frequência desses episódios no cotidiano de brasileiros negros. Segundo Adenir, muitas pessoas compartilharam experiências idênticas ou até mais graves, o que reforça a tese de que o ocorrido não é um fato isolado, mas um "retrato" da realidade nacional. A magistrada destacou que a baixa representatividade no Poder Judiciário alimenta esse ciclo de invisibilidade. Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) apontam que apenas 14% dos magistrados no país são negros, e o percentual de juízes pretos cai drasticamente para 1,7%.
Para a desembargadora, essa disparidade é uma forma de "apagamento" que compromete o desenvolvimento profissional e a autoestima da população negra. “Quando uma mulher preta é confundida com funcionária de supermercado, não é erro de percepção, é a consequência natural de um país que sistematicamente apagou o negro dos espaços de poder”, afirmou.
O cenário de desigualdade estende-se também ao ambiente acadêmico. Um estudo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) corrobora a análise da magistrada ao revelar que quase 90% dos líderes de grupos de pesquisa certificados pelo CNPq na instituição são brancos. Enquanto pesquisadores brancos coordenaram a vasta maioria dos projetos científicos entre 2000 e 2024, pesquisadores negros estiveram à frente de menos de 10% das iniciativas, evidenciando que a liderança científica ainda reflete barreiras raciais históricas.
Fonte: G1 Mato Grosso
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