Comunidade sob ponte em Mato Grosso completa 30 anos e evidencia desafios habitacionais na região metropolitana

Comunidade sob ponte em Mato Grosso completa 30 anos e evidencia desafios habitacionais na região metropolitana

Uma comunidade resiliente sobrevive há três décadas sob as estruturas de concreto da Ponte Júlio Müller, que liga Cuiabá a Várzea Grande. O cenário, composto por moradias improvisadas às margens do Rio Cuiabá, evidencia um persistente déficit habitacional na região metropolitana e a urgência de políticas públicas estruturadas para o setor.

Atualmente, três residências permanecem ocupadas no local, onde os moradores mantêm uma rotina baseada na pesca e na criação de pequenos animais, como galinhas e porcos. Apesar da precariedade inerente à localização, as casas contam com acesso a serviços básicos de energia elétrica e água encanada. A permanência na área, segundo os residentes, deve-se à forte ligação histórica com a atividade pesqueira e à identidade construída com o território ao longo dos anos.

A ocupação teve início em 1994, originalmente no lado da capital. Em 1997, após ofertas de habitação pela Prefeitura de Cuiabá, parte do grupo se dispersou, enquanto outros cruzaram o rio para se estabelecerem no lado de Várzea Grande. "Começamos aqui ainda adolescentes. Os mais velhos foram morrendo e nós fomos ficando. Aqui é nossa vida, do começo ao fim", relatou o pescador Jânio de França Campos, de 54 anos, um dos pioneiros da comunidade.

Do ponto de vista administrativo, a Prefeitura de Várzea Grande informou que as famílias são acompanhadas pelo Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), mas admitiu que o município ainda não concluiu o Diagnóstico Habitacional nem o Plano Municipal de Habitação. Tais instrumentos são essenciais para nortear ações de regularização e realocação. A área é classificada como de Preservação Permanente (APP), o que torna a ocupação irregular perante o Código Florestal.

Além da questão habitacional, a comunidade enfrenta desafios econômicos. A renda, proveniente quase exclusivamente da venda de peixes frescos, é instável e vulnerável a fatores ambientais e períodos de defeso. O segurança Alex Teixeira, que utiliza o local para pesca complementar, destaca a organização do grupo: “Aqui tudo é organizado. Aqui é só família, colocamos até placa para deixar isso claro. Se entrar gente com drogas aqui, a gente tira”.

Especialistas apontam que a situação reflete um problema social mais amplo. Dados do GeoSUAS-MT indicam que cerca de 35,17 mil famílias vivem em situação de pobreza em Várzea Grande. Recentemente, a administração municipal anunciou um programa para regularizar mais de oito mil imóveis, buscando reduzir o passivo habitacional que ainda mantém famílias em condições de vulnerabilidade às margens dos rios mato-grossenses.

Fonte: G1 Mato Grosso

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